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Mostrando postagens de abril, 2009

Contra-sensos

Quando a gota se viu semelhante a uma gema valiosa, na folhagem da primavera, insultou o rio em que se formara: Sai da frente, monstro do chão. Quando o tronco se agigantou diante do firmamento, blasfemou contra a própria raiz: Não me sujes os pés. Quando o vaso passou pela cerâmica em que nascera, gritou, revoltado: Não suporto essa lama. Quando o ouro se ajustou ao palácio, indagou da terra que o produzira: Que fazes aí, barro escuro? Quando a seda brilhou, na pompa da festa, disse à lagarta que lhe dera a existência: Não te conheço, larva mesquinha. Quando a pérola fulgiu, soberana, exigiu da ostra em que se criara: Não te abeires de mim. Quando o arco-íris se reconheceu admirado pelo pintor, acusou o Sol de que se fizera: Não me roubes a luz. Copiando esses contra-sensos figurados da Natureza, o homem insensato, quando erguido ao pedestal do orgulho pelos abusos da inteligência, costuma escarnecer de si próprio, afirmando jactancioso 1 : “A vida é poeira e nada, e Deu...